Aquarius e a trilha sonora de uma nostalgia boa

Foto: Victor Jucá/ Divulgação
Foto: Victor Jucá/ Divulgação

Nem sei por onde começar. Estou aqui perdida.  Tive que parar um pouco para assimilar a chuva de detalhes e riquezas que vi ontem (19),  no filme Aquarius, nova produção do pernambucano Kleber Mendonça Filho, protagonizado por Sonia Braga.

Sabe aquela história de quando você tem tanta coisa para falar e não sabe por onde começar? É isso que estou sentindo agora.

Posso começar dizendo que é um filme incrível? Acho que sim. Mas será que estaria sendo um pouco repetitiva – ou clichê – em relação aos outros críticos que não cansam de rasgar elogios ao filme? Mas realmente – para mim – não tem como dizer algo diferente.

Foi um filme que me fez passar do 8 ao 80. Chorei em uma cena e em outra não conseguia parar de sorrir. Quando me dei conta estava com as minhas bochechas cansadas (lembrando que é sorrir e não rir. Neste momento cairia bem uma frase – fofa – do Pedro do #UmCartão mas não lembro nenhuma agora). Ao longo do texto eu conto quais foram essas duas cenas. E aviso logo que aqui não tem – teoricamente – spoilers mas tem muitos detalhes sobre o filme.

Após a sessão, a Equipe (elenco e equipe técnica) recebeu os jornalistas para sua primeira coletiva no Recife onde o filme foi rodado.(farei outro texto sobre este momento, sobre as falas, e etc pois foi um encontro bem rico). Mas antes de começar a coletiva, reparei no banner do filme que tinha ao fundo da mesa onde os atores se sentariam, e nele tinham algumas falas de críticos estrangeiros sobre o filme e uma delas era: “Uma metáfora sobre o Brasil”, do The Guardian. Ali me deu um estalo e me fez pensar: “claro que é sobre o Brasil mas principalmente é sobre o Recife.”

A quantidade de “referências críticas” (não sei se essa expressão existe mas é o que melhor explica o que quero passar) que o filme tem com a cidade do Recife é impressionante – ou seria lindo? Acho que está mais para lindo pois tem alguém dando voz à isso para a população. Dando aquela cutucada para a gente acordar, sabe? Mostrando que nem tudo é tão lindo como a gente encontra nas colunas sociais da capital pernambucana.

Teve um amigo crítico e jornalista que acabou achando que as críticas foram até demais. Não concordo. Foi o necessário. Tivemos críticas da nossa elite sem caráter – colunável – até a literatura infantil brasileira e uma pequena sátira às novas mídias digitais. (Momento que a gente rir para não chorar pois nos damos conta da real história dos textos infantis populares. Que na verdade são os mais “indelicados e escrachados” livros que uma criança poderia ler.

Aí você me pergunta: sim, então o filme é só crítico? NÃO! Não é. A crítica, na verdade, compõe uma história de uma mulher guerreira, com personalidade extremamente forte, com alma, com cultura na veia, que não tem medo dos tabús sexuais que a sociedade impõe sobre a sua idade (65 anos) e que não tem medo de dizer não, de lutar pelo que é seu, pelo o que acredita. Ou seja, uma pessoa política. Claro que eu estou falando da personagem de Sonia Braga, a Clara. A solar Clara, que até dorme com o seu protetor solar na sua mesinha de cabeceira. É uma mulher da praia, uma mulher do sol, uma mulher do bairro de Boa Viagem.

Foto: Victor Jucá/ Divulgação
Foto: Victor Jucá/ Divulgação

Falando em atores, o time está simplesmente recheado. Além de Sonia interpretar com uma leveza e uma força (características da própria personagem), ela mostrou – em coletiva – está extremamente feliz com esta nova produção, por ter participado do projeto, por ter feito parte da equipe. Não só ela mas os outros atores estão extremamente incríveis e mergulharam de cabeça em seus personagens.

Poderia falar agora sobre os outros papéis “principais” mas começo pela Ladjane (Zoraide Coleto), a empregada de Clara que é ‘humoristicamente’ fantástica. É lindo de ver. Na primeira fala dela você já ver que o filme não vai ser só drama, que não vai ser tão pesado, que vai ter aquele toque essencial de humor que sempre deve ter em qualquer produção que venha com assunto tão intenso.

De Zoraide passo para a atriz Bárbara Colen (Clara na primeira fase), que nos primeiros takes penso: É Clara ou é Elis Regina? Mas nada que se justifique depois de alguns minutos de filme. Palmas para a interpretação dela. Palmas para as expressões dela em cena. E é com ela que já percebemos que a Clara não é uma mulher “qualquer”, sem personalidade, sem força, sem lembranças.

Poderia falar aqui de todos mas ressalto aqui alguns:

Humberto Carrão que chega em seu primeiro longa com o personagem Diego, um rapaz “típico” das colunas sociais de pernambucano, que tem sede de empreendedorismo e sangue nos olhos mas ao mesmo tempo é dito o bonzinho para a sociedade. Irandhir Santos, o apaixonante e cuidadoso bombeiro Roberval. Amigo e pessoa de confiança da – amiga – Clara.

Carla Ribas, a advogada e amiga Cleide. Já tinha visto outra produção com ela mas o que mais me chamou atenção é a força de vontade da atriz em participar da produção. Aí você me pergunta: Carol, você conseguiu ver isso no filme? Não. Não vi no filme. No filme eu apenas tive a certeza, pois vi essa sede de vontade de ser parte de um filme de Kleber quando ela deu uma entrevista à colega de trabalho Simone Zuccolotto para o Canal Brasil.

E termino falando da grande nova atriz (sou fã) Maeve Jinkings. Pernambucana de alma e coração, ela tinha participado do primeiro longa de Kleber, O Som ao Redor, e novamente foi convidada para mais uma produção do diretor pernambucano. Durante a coletiva ela falou sobre o antagonismo da personagem Ana Paula, filha de Clara, e de ser um pouco vilã. Mas como faz quando a gente chora de emoção com a “vilã” do filme? Foi o que aconteceu comigo. E sabe quando a gente chora ‘sem perceber’, sem ter feito um “esforço” para isso, a lágrima simplesmente veio e quando você percebe, você já está chorando? Foi exatamente isso que aconteceu comigo. Durante a entrevista que fizemos com ela para o nosso próximo #CFEntrevista, ela comentou que o próprio Kleber se emocionou com a mesma cena durante o ensaio. É muita sensibilidade. O elenco mostrou para o que veio.

Só para terminar queria lembrar também do casal ‘fofo’ da história que é interpretado pela atriz Júlia Benat (Júlia) e o não ator Pedro Queiroz (Tomás), sobrinho-filho de Clara. Importante destacar o termo não ator pois já é um costume de Kleber trabalhar com gente que está chegando agora no meio. E com Pedro deu certo. Bem certo.

Falando em Kleber… Eu não tenho muito o que falar sobre ele pois suas produções já falam sobre sua personalidade, crenças e qualidade de profissional que ele tem. Só destaco o toque  que ele colocou na direção de Aquarius, com zoons justificados ao decorrer do filme. Próprio para a construção do próprio roteiro. São planos que falam mais do que qualquer diálogo, entende?

Finalizo com algumas palmas.

Palmas para a direção de arte – cenografia, figurino, maquiagem (ponto alto em um determinado ponto do filme) e palmas – muitas palmas – para a trilha sonora. Que trilha. Se em Califórnia, de Marina Person, as músicas dão o “caminho” do roteiro, em Aquarius não é diferente. É algo que puxa o texto, os diálogos e o compasso da produção. ATUALIZAÇÃO: a produção já disponibilizou toda a trilha no Spotify. Afinal, Clara também curti streaming e o mundo digital. (risos).

Ah! Só mais um detalhe: falei que ia falar sobre a cena que não parei sorrir. E foi na cena do baile no Clube das Pás (clássico clube de dança do Recife, onde vários bailes são realizados). É tão linda a cena. É tão fraterna, tão amiga, tão alegre. E ainda ao som de “Recife, Minha Cidade”, um clássico de Reginaldo Rossi que fala sobre a cidade. Foi sensível. Foi leve.

“Hoje, trago em meu corpo as marcas do meu tempo” e na minha memória – guardarei – um filme lindo, sensível e forte.

Acho que agora acabei. Só espero que vocês aproveitem muito a oportunidade de assistir à uma produção como esta. Corram para o cinema no dia 1º de Setembro.

Em seguida vem um post sobre a coletiva de imprensa com as falas dos atores, autor e produtores. Aguardem…

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Carol Cruz

Uma pessoa completamente apaixonada pela cultura (por todo tipo de cultura), uma produtora vidrada pelo mundo do teatro, principalmente dos musicais. Viciada em uma adrenalina de uma produção, seja ela em um ao vivo ou em um evento. Fofurices me encantam mas Caetano também. Escreve culturalmente através deste blog!

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