“Entre Irmãs”, do diretor Breno Silveira, descreve com muita emoção a nossa antiga – e atual – sociedade!

Marjorie Estiano, Cynthia Coentro e Nanda Costa em cena no filme “Entre Irmãs”. Foto Divulgação.

No último dia 12, o filme “Entre Irmãs”, de Breno Silveira, estreou em todo o Brasil. A produção é baseada no livro “A Costureira e o Cangaceiro”, de Frances de Pontes, e tem o roteiro assinado por Patrícia Andrade, parceira do diretor há bons filmes, que traz a história de Emília (Marjorie Estiano) e sua irmã Luzia (Nanda Costa), costureiras e grandes companheiras na vida pacata de Taquaritingá do Norte, sertão nordestino, e que tem sonhos distintos. Enquanto Emília sonha em conhecer um ‘príncipe encantado’, ser uma mulher independente e ir para a capital, Luzia só quer seguir a sua vida simples, sem nenhum desejo ambicioso. Quando eram crianças, Luzia sofre um acidente que a deixa com um problema no braço e com a sensação que nenhum homem casaria com ela por conta disso.

Na verdade, o filme traz as histórias das duas irmãs como um “guia” para contar uma outra história importante para o nordeste, para o Brasil, que é a vida de Lampião. O cangaceiro vem no longa como o “Carcará” (Julio Machado). Ele conhece Luzia em uma das suas invasões ao sertão, e obriga a jovem a se juntar a ele e ao seu bando. Os dois começam a criar uma relação. Logo percebemos que essa Luzia é uma personagem totalmente inspirada em Maria Bonita.

Júlio Machado vivi Carcará em “Entre Irmãs”. Personagem que é totalmente baseado na história de Lampião. Foto: Divulgação.

Durante a coletiva, que aconteceu logo depois à exibição do filme, o diretor comentou que tinha esse desejo de falar sobre a vida de Lampião através de Maria Bonita, assim como fez nos seus outros filmes onde também narra histórias de  determinadas pessoas através de outras. Então, a partir dessa vontade, ele teve o contato com o livro “A Costureira e o Cangaceiro”, um livro rico sobre a história do nordeste e suas personalidades, onde Frances passou três anos pesquisando e 3 anos escrevendo. “Foi muita pesquisa, mas também foi experiência”, disse a escritora do livro que chegou à ir para a cidade natal (apesar dela morar hoje em dia nos Estados Unidos, Frances é pernambucana de nascença e sua família é de Taquaritinga) para conversar com as pessoas de lá e saber um pouco mais sobre as suas histórias, sobre a história daquela cidade, daquele povo e a relação com aquela época, que foi marcada por essas duas personalidades tão fortes do Brasil.

Como Breno comentou, “Entre Irmãs” conta – UM POUCO – da história do Brasil em uma ficção. O longa foi considerado por uns colegas críticos como um filme onde seria 10% documental e 90 % ficção, mas já não posso concordar tanto. Pessoalmente aumentaria essa porcentagem documental, pois é sutil e delicado o jeito que o roteiro também trata da evolução das mídias e das tecnologias (desde as cartas até o gramofone, o ventilador…), além de mostrar de forma clara como funcionava, ou melhor, como funciona a sociedade até hoje.

Marjorie Estiano e Letícia Colin são mulheres em busca da independência e liberdade em Entre Irmãs. Foto: Divulgação.

Algumas das tantas coisas que me chama a atenção na produção são frases como: “Todas as famílias novas tem um desse (um gramofone), então a gente também deve ter”, “As pessoas tinham que se preocupar com a própria vida”, “a sociedade pernambucana e sua hipocrisia”. São frases que definem bem a nossa sociedade. Outra forte característica que eles exploraram foi o uso de um forte sobrenome para a família da capital. Foi colocado no texto com muita maestria, pois sabemos que o AINDA hoje muitas pessoas dão atenção às outras mais pelo (valor do) nome do que por qualquer outra coisa.

Apesar de ser baseado em um livro que se trata sobre uma sociedade da década de 20 e 30, que foi lançado em 2009, e com um filme com estreia em 2017, os temas abordados – infelizmente – não deixaram de ser atuais.

Além de retratar sobre toda essa realidade social, a narrativa se aprofunda ainda mais nesse contexto. Ela trata de temas como a homossexualidade, que já era algo comum naquela época, onde a sociedade era (ainda é) preconceituosa, desrespeitosa e machista. Ou seja, assuntos que são NECESSÁRIOS debatermos hoje e sempre, enquanto tiver preconceito racial, sexual, social. Enquanto tiver preconceito. Um roteiro que deixa claro que era um tempo onde já tentavam definir a homossexualidade como doença. “A frase ‘Não tem nada mais que a disciplina e a força de vontade para te curar’ já estava no livro”, disse Patrícia ao comentar a exploração do assunto em um filme onde se passa no começo do século XX e que parece totalmente atual. “Já me falaram que os atores tinham dublado essa parte do filme”, diz o diretor indignado ao ver que as pessoas não acreditam que todo este preconceito existe há um bom tempo.

Ao saber que se trata de um filme de Breno, sabemos que a vida do interior e emoções – muita emoção – são dois “itens” que não podem faltar. “O Brasil do interior me interessa muito (…) Eu sempre gosto de cinema que emociona”, foram duas afirmativas que se destacaram durante a rodada de perguntas, pois realmente isso define o estilo do diretor.

Rômulo Estrela e Marjorie Estiano fazem o mais novo casal “Duarte”. Foto: Divulgação.

Breno, que também já é conhecido pelo seu belo trabalho pela direção de fotografia, um diretor totalmente apaixonado pela fotografia, não podia errar o dedo em mais sua produção. E não errou. A fotografia do “Entre Irmãs” é linda e funciona de forma bem fluida. Mesmo o filme se passando em outra época, ele escolheu por não seguir pela fotografia um tom mais “envelhecida”. Claro que o terroso estava bem presente nas cenas que se passam no sertão, mas nas cenas da capital ele não deu foco ao “antigo” e funciona maravilhosamente bem.

Apenas uma coisa não me agrada muito no filme, mas não sei qual seria a outra forma deles produzirem isso. Em dois momentos (quase sem spoilers) do filme, dois objetos de cenografia se tornam “destaque” nas cenas. Duas passagens de tempo importantes, mas que deveria ter sido melhor produzida ou criada. Solução? Não tenho. Está muito ruim o que eles fizeram? Não. Mas dava para terem feito melhor? Acredito que sim.

A escolha do elenco foi um dos maiores acertos desse filme. Todos já estamos cansados de saber que o diretor pode ter a melhor equipe técnica da vida, mas se não tiver atores bons e dedicados, ele terá uma produção horrível. Marjorie Estiano, Nanda Costa, Julio Andrade, Rômulo Estrela, Letícia Colin, Gabriel Stauffer, Cyria Coentro (todas as palmas para as suas cenas de força e emoção), Ângelo Antônio, Claudio Jaborandy, Rita Assemany, um enorme elenco que formou o bando do cangaceiros e entre outros personagens, merecem todos os elogios possíveis. São atores que se doaram, que estudaram, que trouxeram uma emoção sincera, que se dedicaram a produzir papéis tão importantes, que trouxeram assuntos tão atuais quanto do começo do século passado.

Mas se o filme realmente acertou em alguma coisa, essa coisa foi o sotaque. FINALMENTE o sotaque pernambucano veio com clareza e com fidelidade. Do arrastado até o “chiado” das palavras com “s”. Do sotaque pernambucano do interior ao sotaque pernambucano da capital. Isso foi um resultado do trabalho em conjunto entre o esforço dos atores e a preparadora vocal Jacqueline Preston (não tenho certeza se é assim que se escreve o nome dela, mas em breve confirmo aqui), fonoaudióloga do Rio de Janeiro. O sotaque do nordestino finalmente deixou de ser esteriotipado – ou forçado – em vozes de atores que são cariocas, paulistas, etc. Nada de sotaque forçado. Nada de exagero. Se alguém falar do sotaque, é porque realmente não conheceu, não viveu, não conviveu com pessoas do Recife. E acho super importante destacar isso, pois é um trabalho de todo um elenco, de toda uma equipe, que se preocupou em trazer algo fiel. Resumindo: não menosprezaram a forma de falar.

Posso definir “Entre Irmãs” como um filme épica, que traz muita emoção e um singelo estudo cultural, social e antropológico, misturado com uma boa ficção completa de amor, irmandade e carinho. Uma boa mistura para acompanhar nos cinemas!

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Carol Cruz

Uma pessoa completamente apaixonada pela cultura (por todo tipo de cultura), uma produtora vidrada pelo mundo do teatro, principalmente dos musicais. Viciada em uma adrenalina de uma produção, seja ela em um ao vivo ou em um evento. Fofurices me encantam mas Caetano também. Escreve culturalmente através deste blog!

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