“Eu, meu Pai e os Cariocas”: uma produção necessária para entender a nossa cultura

A primeira formação de “Os Cariocas”: Ismael Netto, Emmanoel Furtado (o querido Badeco), Waldir Viani, Jorge Quartarone (Quartera).

“Eu, Meu Pai e os Cariocas – 70 anos de Música no Brasil”, de Lúcia Veríssimo, foi o primeiro filme que assisti no festival É Tudo Verdade!, no último mês, em São Paulo. E, também foi com ele que tive o meu primeiro contato com o festival. Sai da sala de cinema feliz, bem feliz com o que vi. Além do Festival ser uma coisa encantadora, público lotando a sala de cinema para assistir à documentários feitos por brasileiros e estrangeiros, com temas bastante diversos. – Vida longa ao festival!

A produção carioca, que não só traz a história de Lúcia (eu), Severino (meu pai) e os cariocas (Banda Os Cariocas), traz a história de um país, de uma cultura, de uma música e de inúmeros talentos musicais. Severino Filho, que faleceu tempo depois das filmagens serem encerradas, foi integrante da banda “Os Cariocas” desde o seu início, passando por uma parada de 20 anos, até a sua volta. Além de dar voz às músicas, o maestro também era compositor. Mil desculpas se estou sendo exagerada, mas posso considerá-lo até um gênio da música.

O pai da atriz compôs e escreveu diversos músicas que viraram clássicos da nossa Bossa Nova e da nossa MPB. Um cara simplesmente talentosíssimo, assim como os outros integrantes do grupo da primeira formação: Ismael Netto, Emmanoel Furtado (o querido Badeco), Waldir Viani, Jorge Quartarone (Quartera). E como todos os outros componentes das outras três formações que o grupo teve até os últimos anos, com a última apresentação no Teatro Amazonas, em 2013.

A importância que eles tem para a música é tão forte como a importância que eles tem para os outros músicos. Durante o longa, escutamos diversos artistas (Fafá de Belém, Chico Buarque, Moska, Martinho da Vila, Gal Costa, Djavan, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Maria Alcina – que estava presente conferindo o filme no Festival – e entre tantos outros grandes nomes) comentando o quanto eles foram determinantes para nossa cultura, para a Bossa Nova, e para a vida artística de cada um. Estudiosos, como Ruy Castro e Nelson Motta, também deram seus depoimentos sobre o grupo.

Imagino que o material bruto do filme seja gigante, pois foram feitas inúmeras entrevistas. Muitas mesmo. Mas sabe quando cada frase dita é necessária para a entendermos a história riquíssima desse grupo? Pronto, foi isso que aconteceu no documentário. Escutei falar que alguns reclamaram que tinha muito sobre a história da diretora, mas como já diz no título “Eu, meu pai e os Cariocas”, não tinha como não ter, né gente?

Lúcia Veríssimo e seu pai, o grande maestro Severino Filho. Cantor e compositor do grupo “Os Cariocas”.

Logo no começo do texto, confirmei que é um filme necessário para entendermos mais sobre o nosso país. Além de mostrar a história deles, o filme mostra a história deles com a história do Brasil. Pois, como foi um grupo que percorreu muitos anos, também foi um grupo que viveu de acordo com cada contexto atual brasileiro. Na época de Getúlio Vargas, eles simplesmente pararam de tocar. “Terminaram” com o grupo. Não aceitavam aquele momento, aquela censura. Depois de 20 anos, voltam, e voltam do mesmo jeito e com o mesmo talento incrível. “Eu acho que é um caso único na história da música popular. Um conjunto está há 20 anos fora, e voltar extraordinariamente bem”, disse Ruy Castro sobre o retorno do grupo.

Digamos que o nome Os Cariocas seja o mais perfeito possível. Além de serem considerados “o som do rio” (como citado no filme), eles também marcaram a história da Rádio Nacional do Rio de Janeiro – assunto que sou completamente apaixonada. Realmente, não tem como falar do conjunto sem falar da emissora. Escutar mais sobre a Rádio, que teve um papel super importante para o avanço da nossa comunicação, junto com a história do’S Cariocas, foi algo simplesmente maravilhoso. Foi algo muito além de simples fatos, foi escutar mais sobre eles, sobre Emilinha, sobre Marlene (a’s Rainha’s), sobre composições, sobre alcance de voz… nossa… foi lindo!

Falando em alcance, esse foi o tema mais presente em todos os depoimentos: o alcance e o poder das vozes, do vocal do quinteto. Lúcia não só relembrou disso, como também das inúmeras gravações e das grandes composições do Severino, como “Chega de Saudade”, sucesso na voz de João Gilberto. Ela também não poderia deixar de lembrar de “Fio Maravilha”, uma composição de Jorge Ben Jor, instrumentalizada pelo Carioca. Lúcia relembrou – lindamente – a clássica apresentação do clássico com Maria Alcina, que marcou a história da música brasileira. “Disritmia”, sucesso na voz de Martinho da Vila, também instrumentalizada por Severino, foi relembrada. Nela, foi destacada a parte instrumental que o maestro fez questão de compor com a participação de uma orquestra.

Para quem não conhece essas duas últimas versões que falei, achei no YouTube. Clique e se delicie com esses clássicos:

 

Para dizer que eu não só falei da Rádio Nacional do Rio, o filme também lembra da relação entre Severino e a TV Rio. Inclusive, Boni, da Rede Globo, também deu o seu depoimento. Tudo bem que sua última fala foi um pouco controversa, acho que não condiz com a história da emissora, mas ele foi bom escutar suas histórias sobre Severino e seu grupo.

Esteticamente o filme me agrada bastante. Cheia de arquivos, que foram disponibilizados por jornais, TVs, amigos, familiares, e etc, Lucia soube ilustrar muito bem a sua produção. Hora nenhuma – pelo menos eu – não senti falta de qualquer imagem que seja. O filme é bastante rico. E um outro detalhe que simplesmente gostei muito – posso ser fresca ao falar sobre isso, mas realmente é algo que, para mim, fez toda a diferença – foi a escolha da cor da letra. Chega daquele branco, do branco ‘chato’. Daquela legenda que nem em toda imagem fica legível. Lúcia escolheu o laranja, que não tem P&B que atrapalhe. Foi uma pós -produção bem feita, assim como a direção que fez o seu papel.

Sobre  Os Cariocas só tenho algo a dizer:  é um grupo que, com certeza, nunca acabará. Ele sempre estará presente na nossa música, na nossa história.

Para quem não conhece, ou não sabe quais são suas composições, no Spotify tem um perfil deles, com alguns dos diversos discos. Vale super a pena escutar.

Não sabemos ainda a data da estreia nacional do filme, mas para você ficar na vontade, dê um clique no vídeo e veja o trailer. Saia cantando por aí e sorrindo. Mas se você é daqueles que já viu no festival (Rio ou São Paulo), veja o trailer e relembre mais dessa produção que, repito, é uma produção necessária para a cultura brasileira.

 

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Carol Cruz

Uma pessoa completamente apaixonada pela cultura (por todo tipo de cultura), uma produtora vidrada pelo mundo do teatro, principalmente dos musicais. Viciada em uma adrenalina de uma produção, seja ela em um ao vivo ou em um evento. Fofurices me encantam mas Caetano também. Escreve culturalmente através deste blog!

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