Fala Comigo e sua delicadeza intensa

Tom Karabachian e Karine Teles em cena. Foto: Bruno Melo/Divulgação.

Estreia hoje, no circuito comercial, o filme “Fala Comigo”, de Felipe Sholl. Um filme que tive a chance – e a sorte – de assistir na cabine seguida de uma coletiva bem sincera com o diretor, produtor e atores.

Fala Comigo é um filme que conta a história de Diogo (Tom Karabachian), um jovem de 17 anos, que está em plena fase de se conhecer melhor, de saber seus gostos, seus desejos, suas vontades. Sua mãe Clarice (Denise Fraga) é psicanalista e atende diversos pacientes. Uma delas é Ângela (Karine Teles), uma mulher de 43 anos que acaba de ser abandonada pelo marido. É através desse contato que Diogo de 17 e Ângela de 43 se apaixonam. Os dois vão tentar começar uma relação, mas vão ter que passar por muitos obstáculos para permanecerem juntos. Não só a diferença de idade, mas a relação deles com Clarice e a chegada de Diogo na sua fase adulta.

O filme é extremamente intenso e delicado. No começo, pensei que seria mais um romance ilustrado por cenas de sexo e pronto, mas ele está longe de ser apenas uma história de amor. É uma história que traz amor, ou melhor, a busca em saber se aquela relação é composta realmente por amor ou por um sentimento de falta – por parte dela – e um sentimento de curiosidade e descoberta – por parte dele – que animam a relação dos dois. Não sei ao certo se essa minha definição estaria certa, mas sei que no desenrolar da história não, não tem mais busca nenhuma. Tem uma relação forte, intensa, delicada e certa. Quando falo “certa” é certa em relação ao sentimento deles, mas é uma relação extremamente – coloque extremamente nisso – por conta dos obstáculos, do sentimento da mãe em relação aos dois, e da realidade vivida dentro da casa do próprio Diogo.

Felipe Sholl assina a direção do filme “Fala Comigo”. Foto: Bruno Melo/Divulgação.

Uma produção que me surpreendeu, que me deixou muito feliz quando a sessão terminou. Além de uma narrativa cheia de detalhes, super percebemos o cuidado que Felipe teve com a direção. Sem precisar mostrar muito os corpos dos personagens, Felipe trouxe cenas de sexo cheias de delicadezas. Deixou claro que para fazer uma cena de sexo super bem feita não precisa mostrar “tudo”. As expressões dos próprios personagens formam os melhores enquadramentos. A trilha sonora é outro item que ajuda a compor toda a produção. Além da trilha, o seu oposto também é muito – muito mesmo – bem utilizado. O silêncio aparece, ou melhor, fala em várias cenas do filme. E nenhuma trilha sonora falaria mais do que ele. É outra coisa que mostra a grandeza do diretor.

Família “Fala Comigo” reunida. Tom Karabachian, Denise Fraga, Anita Ferraz e Emílio de Mello. Foto: Bruno Melo/Divulgação.

Sobre a interpretação dos personagens não tenho muito o que falar. A atuação de Denise Fraga é algo que fala por si só. Karine Teles também é outra atriz que vem crescendo muito no cinema brasileiro. Alguém lembra de “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert? E Tom é uma grande descoberta. É o primeiro longa do ator e ele se saiu super bem. As cenas dele são bem marcantes para uma “1ª vez” (desculpe o trocadilho rs não aguentei) em longas.

Outros dois atores que se destacam são Emílio de Mello, que faz o papel de Marcos, pai de Diogo e um homem que tem uma relação complicada com Clarice, e a pequena Anita Ferraz, que faz o papel de Mariana, irmã mais nova do protagonista, que tem diálogos incríveis – de gente grande – com o irmão.

Felipe Sholl durante as gravações de “Fala Comigo”. Foto: Bruno Melo/Divulgação.

O roteiro, que também é de Felipe Sholl, começou a ser escrito em 2005, e marcou a vida do cineasta pois é seu primeiro longa. “Eu, como diretor e roteirista, fico muito feliz pelo casal”, disse Felipe ao responder uma das primeiras perguntas feitas durante a coletiva. Ele também comentou sobre o título do filme. No começo, a ideia era “Ao Lado”, mas ninguém gostava muito do nome. Foi na montagem que surgiu o definitivo “Fala Comigo”. “É uma misto de pedido mais silêncio. Solidão e comunicação”, explicou. Uma curiosidade: no começo de tudo, ele só tinha o personagem Diogo e Ângela. Foi a vontade de untar os dois em uma só história que fez surgir o filme. Ele comentou também sobre as mudanças que o roteiro levou teve, comentando que de 2005 pra cá, muita coisa mudou no mundo, assim como no filme.

Denise Braga brilhando mais uma vez no papel de Clarice. Foto: Bruno Melo/Divulgação.

Falando em mudança, a personagem Clarice, feita por Denise, foi a que mais teve alteração. Felipe é um apaixonado pela psicologia e por Freud, então, nada melhor do que seguir para esse lado. Ele também nos contou que decidiu que Denise interpretaria a mãe e psicanalista durante as gravações do filme “Hoje”, de Tata Amaral.

A primeira pergunta que fizeram para Denise foi que ela faria se isso acontecesse na vida dela. E ela respondeu: “Quando estava gravando, meu filho tinha a mesma idade do Tom. Nunca isso me incomodou, mas se meu filho aparecesse namorando uma mulher mais velha, talvez eu ficasse com medo dela querer/virar ser mãe dele.” E falou mais sobre o filme: “Você sai alargado do cinema. (…) E eu acho que esse estado que o filme deixa a gente é o grande mérito do filme.

Sobre a sua personagem e uma das cenas mais fortes do filme, onde – na minha opinião – Clarice se ver perdida entre o seu papel de mãe e de psiquiatra, durante uma conversa com namorada do seu filho: “ela ataca, mas ela sabe que está errada.” E volta a repetir a sua sensação com o filme: “Alarga para todos os lados, e isso é a melhor coisa”.

Karina Teles também falou sobre esse “tipo” de relação e sobre o relacionamento dos dois personagens. Ela ilustrou sua opinião com uma situação que tinha passado no dia anterior, onde estava em um restaurante com os amigos e começaram observar que na mesa vizinha tinha um casal que estavam começando uma relação. Do nada, ela começou meio que a julgar, mas na mesma hora parou e pensou: “A felicidade deles não tem nada haver com a minha. (…) Tudo de ruim, corrupção, violência – etc – é por falta de amor.” Completou o pensamento falando mais sobre o amor e sobre a importância de um amar o outro. “O filme coloca a gente para pensar justamente nisso”, disse Karine sobre o longa.

Karine Teles e Tom Karabachian formam o par romântico do longa. Foto: Bruno Melo/Divulgação.

E quando começaram a falar sobre o diretor Felipe Sholl, elogios não faltaram: “Esse mérito (resultado final do filme, o alargamento que Denise tanto falou) é todo do Felipe. Além de ótimo diretor, ele é um ótimo preparador de elenco”, disse Tom, que também destacou que Felipe não usava o “Ação” e sim o “Quando você quiser”, lembrando todo o cuidado e atenção que o diretor tinha com eles.

Já Karine comentou dos planos e do quanto o ator, no cinema, está vulnerável ao diretor e falou: “Diferente do teatro, o ator está muito vulnerável. Dependo dos planos dos enquadramentos.” Para completar, Denise comentou do cuidado – que já comentamos aqui – que Felipe teve com o silêncio: “Sinto que o silêncio é a coisa mais importante. Sinto o quanto o silêncio fala. E o Felipe sabe disso e lida com isso muito bem.”

Então, não preciso falar mais nada, não é mesmo? Vá ao cinema e se delicie com essa delicadeza intensificada de “Fale Comigo”, que está em cartaz em algumas cidades do Brasil. São elas: São Paulo, Rio de Janeiro, Santos, Niterói, Palmas, Florianópolis, Curitiba, Brasília, Belo Horizonte e Aracaju.

Então, está esperando o quê? Corram para o cinema e vejam que beleza é “Fale Comigo”.

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Carol Cruz

Uma pessoa completamente apaixonada pela cultura (por todo tipo de cultura), uma produtora vidrada pelo mundo do teatro, principalmente dos musicais. Viciada em uma adrenalina de uma produção, seja ela em um ao vivo ou em um evento. Fofurices me encantam mas Caetano também. Escreve culturalmente através deste blog!

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