“O Filme da Minha Vida” e a pureza do amor e das relações

Não sei como começar a falar de O Filme da Minha Vida, terceiro longa metragem do ator Selton Mello. Depois de “Feliz Natal” (2008) e “O Palhaço” (2011), Selton lança mais um filme onde assina a direção o roteiro, além de atuar. Era um dos mais aguardados do semestre – ou posso dizer do ano? – de 2017. Finalmente essa ansiedade acabou. Vimos o filme. Pensei: Ah, capaz de ser mais uma produção que me encantará e ponto, mas não. O filme não só me agradou e me encantou, como me deixou surpresa com tanto amor e beleza. Beleza? Sim. Beleza dos atores, de como eles foram dirigidos, de como eles estão fluídos nos papéis, beleza da trilha sonora escolhida, do figurino e da direção de arte, das locações – pra mim é uma das coisas mais fundamentais do cinema, pois é algo que fala muito com o público e personagens – e, principalmente, da fotografia. Cada escolha foi um grande acerto. Um trabalho em equipe que fluiu do início ao fim.

Sobre o filme…

O Filme da Minha Vida conta a história de Tonny Terranova (Johnny Massaro), um jovem que morava com seus pais Nicolas (Vicente Cassel) e Sofia Terranova (Ondina Clais), nas serras gaúchas, na década de 60. Em uma certa época, o pai, que era francês, decide abandoná-los, deixando os dois na pequena cidade do interior. A partir daí, Tonny se vê obrigado a amadurecer sem a presença de Nicolas, sem saber/entender o que tinha acontecido para o pai tomar essa decisão. O filho único se torna professor. Uma profissão que também vai ensiná-lo a lidar com o crescimento e amadurecimento dos seus alunos.

Se comentar um pouco mais sobre a história, acabo soltando diversos spoilers, pois o roteiro é cheio de surpresas. Surpresas que simplesmente aparecem. Sem muito alarde, sem chocar muito, mas fazendo você suspirar depois de prender a respiração de tanta ansiedade. Falando em roteiro, o texto é uma adaptação do livro “Um Pai de Cinema”, de Antonio Skármeta (Chile), mesmo autor de “O Carteiro e o Poeta”. Há um certo tempo, Antonio recebeu a sugestão de um amigo para que ele convidasse Selton Mello para fazer a adaptação do seu livro para o cinema. E foi isso que aconteceu. O chileno mandou o convite para o brasileiro, que aceitou na hora, e, junto com Vania Catani (grande produtora brasileira e a mesma de “O Palhaço”), fizeram essa obra de arte.

“Obra de arte?” Sim. Obra de arte. É um grande trabalho e tem todas as qualidades que já citei logo no início do texto, e traz uma história linda, cheia de amor, intensa e ao mesmo tempo “leve”. São personagens fortes, que marcam presença em cada cena, em cada plano escolhido. São histórias até que um pouco clássicas, mas que você não as reconhecem logo de início. (Essa é uma das melhores características do filme).

Teve um crítico que escreveu: “Um filme de afeto.” Concordo bem com ele. Já discordo de um outro diretor que, durante um debate, onde o tema chegou até o significado da palavra, comentou que não podemos definir ‘afeto’ como uma coisa só, que não podemos falar como se fosse algum sentimento único. Mas nesse caso entendo o crítico, pois creio que o que ele incluiu nesse afeto tenha sido amor, carinho, brigas, confusões, traições, amizade, raivas, tudo que envolve essa sensação que é gerada por diversos sentimentos. Ou seja, “O Filme da Minha Vida” é um filme de afeto.

Sobre a parte técnica…

No começo do texto, destaquei a fotografia. Não tinha como não esperar outra coisa além de uma fotografia exuberante vinda de Walter Carvalho. Vocês podem achar: “ai, mas quantos elogios à produção!” Mas não tenho como definir o trabalho fotográfico de outra maneira. Junto com a direção de Selton Mello, Walter traz uma estética bem diferente para um filme brasileiro feito atualmente. Não sei se outro diretor de fotografia passaria tão bem como ele passou essa sensação de estarmos vendo algo realmente do interior do sul do Brasil dos anos 60.

O trabalho de produção também é destaque, pois as locações também foram bem escolhidas. O filme foi rodado em Bento Gonçalves (RS) e em algumas outras cidades ao redor. Junto com essas escolhas, o figurino, assinado por Kika Lopes, a direção de arte, feito por Claudio Amaral, a trilha sonora linda (vai de Nina Simone até Sérgio Reis) com diversas músicas, que são meio complicadas (R$) de conseguir direitos autorais, nos ambientaram totalmente na época do filme.

Os atores estão maravilhosos, incríveis, puros, entregues à cada história de cada um dos personagens. Quando falamos sobre o filme “Fala Comigo”, citamos muito a necessidade do silêncio ou o não uso excessivo da trilha sonora e dos diálogos nas produções. No caso do filme de Selton Mello, não é um filme com muito ‘silêncio’, por conta da trilha, que quase não sai de cena, mas é um filme com diversos momentos em que não temos fala. E, mesmo com essa “falta de diálogo”, de palavras, os atores souberam usar muito bem o não verbal com seu olhar, seu corpo, seus gestos. Isso não se deve só ao talento dos atores, mas como eles foram dirigidos e como o filme foi fotografado. Novamente, Selton e Walter juntos nos deram uma bela obra de arte.

Sobre o seu encontro com o ator Johnny Massaro…

Um dos melhores encontros que o cinema brasileiro já teve. Acompanho o trabalho do Johnny há um tempinho, mas o Tonny Terranova veio realmente para marcar a sua carreira e seu talento. Entre os atores também destaco as crianças – que pessoinhas (não tão pessoinhas, pois hoje já estão enormes) maravilhosas, fofas, talentosas e graciosas.

Outro ponto é o grande papel do próprio Selton na narrativa. Além de ter feito o roteiro, ele dirigiu e também participou do filme. O papel dele não estava muito presente em toda a história, mas aparece nas principais cenas e nos principais pontos de virada do filme. Um personagem importante. (não posso dizer mais muita coisa: spoiler).

As atrizes também trabalharam muito bem. Com cada olhar (reparem os olhares de cada um no pôster antes de assistir ao filme) elas souberam nos transmitir uma emoção, uma verdade, uma sensibilidade. Acho que é bem essa a palavra do filme: Sensibilidade.

Sobre a volta de Rolando Boldrin…

O filme também é responsável pela volta de Rolando Boldrin aos cinemas. Depois de quase 20 anos, o apresentador deixa um pouco de lado a TV e volta à atuar nos cinemas. O convite foi feito pelo diretor, que escreveu esse personagem, que não existe no livro, especialmente para ele. É um dos personagens que pouco fala, mas muito diz. Ele conduz toda a história. Rolando interpreta o maquinista Giuseppe, que conhece todos os segredos e todas as relações da trama. É um olhar forte e uma emoção marcante.

Sobre a participação – internacional – de Vicent Cassel…

Segundo o Selton, ele é mais carioca do que muita carioca. Tem casa no Rio, joga capoeira, anda de moto e fala bem o português.  O francês, que já conhecia o trabalho do diretor, já tinha visto o filme “Cheiro do Ralo”, quando recebeu o convite para fazer o pai do protagonista, ele aceitou na hora. Realmente é um francês mais carioca que existe.

É um filme que fala sobre sonhos, realizações, encontros e desencontros, amores, carinhos e descobertas. Tudo isso com muita sensibilidade. Tudo isso bem trabalhado. Selton Mello comemora 35 anos de carreira da melhor forma possível. É uma história linda, que não traz uma “lição de moral” muito bruta, mas que nos ensina. Que nos faz imaginar. Que nos conta uma história linda.

A produção, que estreou nos cinemas no último dia 3, promete ainda muito. Além de marcar a história do cinema, muitos dizem – e eu concordo – que o filme tem grande chance de ser o indicado do Brasil ao Oscar. Vamos esperar…

Enquanto isso, não perca “O Filme da Minha Vida”, nos cinemas!

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Carol Cruz

Uma pessoa completamente apaixonada pela cultura (por todo tipo de cultura), uma produtora vidrada pelo mundo do teatro, principalmente dos musicais. Viciada em uma adrenalina de uma produção, seja ela em um ao vivo ou em um evento. Fofurices me encantam mas Caetano também. Escreve culturalmente através deste blog!

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